Alavancas de Valor de uma Marca Valiosa
Fonte: Revista RI n°141
Por Eduardo Tomiya
Publicado março de 2010

Uma das grandes dúvidas acerca do tema branding trata das alavancas de valor de uma marca valiosa. O que está por trás do sucesso das marcas consideradas valiosas?
Por Eduardo Tomiya
O primeiro ponto avaliado é o relacionamento dos consumidores com as marcas, principalmente quando a empresa está envolvida em um segmento B2C ou que tenha contato com as marcas. Deve-se avaliar também a posição deste consumidor, que pode escolher entre diversas opções de um mesmo produto.
Uma das ferramentas que melhor consegue quantificar a qualidade deste relacionamento “consumidor x produto” são pesquisas de mercado de brand equity ou força de marca. Uma marca forte se caracteriza por um conjunto de três grandes grupos de atributos:
1. Conhecimento – Dentro de uma categoria, é uma marca que todos conhecem. É o chamado top of mind. Por muito tempo, muitos achavam que marcas valiosas eram simplesmente conhecidas pelo público. Tal conhecimento é, na verdade, item bastante qualificador. Por exemplo, quando pensamos em bancos no Brasil, alguém dúvida que a maioria das pessoas aponte as marcas Bradesco, Itaú, Banco do Brasil?
2. Diferenciação e relevância no processo de escolha – Das pessoas que conhecem, quais consideram esta marca como uma das opções? A isto chamamos relevância. Quantas pessoas consideram que determinada marca é a única que pode atender suas necessidades? É o que chamamos de bonding. Quanto mais a marca conseguir converter seu conhecimento em diferenciais e relevância, mais ela influencia no processo de decisão de compra ou na geração de valor do acionista
3. Lealdade e recomendação – Consumidores leais compram até 10 vezes mais que a média dos consumidores que simplesmente conhecem a marca. Tomemos como exemplo a marca Natura. Avaliando a compra das consumidoras que conhecem a marca, supomos que gastam cerca de R$ 10/ ano. Enquanto isso, consumidoras leais, selecionadas de acordo com nossos critérios, gastam quase R$ 100/ ano.
Anualmente, a BrandAnalytics publica um ranking com as marcas mais fortes do Brasil, baseado na pesquisa realizada pela Millward Brown – BrandZ.
COMO SE MENSURA A FORÇA DE UMA MARCA NO RANKING DA BRANDANALYTICS
- As marcas mais fortes no Brasil?
Na elaboração do ranking das Marcas Mais Fortes no Brasil foi utilizada a BrandZ®, uma pesquisa realizada mundialmente pela Millward Brown, a maior base de dados sobre o relacionamento de consumidores com marcas.
São dez anos de pesquisas de mercado, um milhão de consumidores entrevistados e 50 mil marcas comparadas em 31 países, envolvendo consumidores finais e B2B em 443 categorias. No Brasil, foram realizadas cerca de 12.800 entrevistas em 32 categorias nas principais cidades do país.
O critério de conclusão sobre a marca mais forte é obtido com o resultado do processamento das pesquisas que, ao final, consideram duas variáveis-chave neste processo: a Presença e o BrandVoltage®
- Presença – É um índice que reflete o conhecimento da marca.
- BrandVoltage® – É uma métrica que reflete o sucesso da marca em converter o conhecimento em nível de lealdade.
Do produto da Presença pelo BrandVoltage®, tem-se o Índice de Brand Equity, que é uma medida que conjuga o conhecimento da marca e a proporção de clientes bonding. Esta equação se faz com associações e percepções muito claras e com o posicionamento da marca na mente dos consumidores, alinhados à promessa da marca.
Através do Índice de Brand Equity, entendemos que uma marca olímpica é aquela que possui presença e também um posicionamento bastante claro, com elevado nível de lealdade entre seus consumidores.

COMO A FORÇA ?
A quantificação de resultados financeiros desta marca forte pode ser sumarizada em três grupos ou três alavancas de valor. Descreveremos cada uma das alavancas a seguir:
1. Premium Price Aceitável
Sem dúvida, esta é a alavanca de valor mais visível e tangível. Em uma gôndola de supermercado, com vários produtos aparentemente iguais – as chamadas commodities - , por que um deles consegue um prêmio de preço em relação aos concorrentes em um momento econômico difícil? Por exemplo, o açúcar. Em tese, este é um produto cujos atributos físicos são muito parecidos, e o consumidor não consegue, tecnicamente, verificar se um açúcar é melhor que outro. Porém, uma pesquisa junto a consumidores nas gôndolas mostrou que o açúcar União possuía uma diferencial quase 10% superior quando comparado aos concorrentes, conforme ilustra o gráfico a seguir:

É óbvio que este prêmio de preço é fruto de uma relação em que o consumidor “confia” que aquele produto pode ser superior aos demais, relação essa que envolve um vínculo emotivo com a marca. Algumas consumidoras mencionam que aprenderam a fazer doces com os famosos livros de receitas União. E, surpreendentemente, acham que “o doce feito com esse açúcar tem um ponto de cozimento ideal em relação à receita que elas estão acostumadas a fazer”. Portanto, para doces, somente utilizam União.
Essas consumidoras declaram que se identificam (personificação)com a Dona Benta, personagem do Sítio do Pica- pau Amarelo. Esse nome está tão associado à ideia de “família” que, para uma grande quantidade de donas de casa, o cheiro de bolo pela casa é sinal de extrema felicidade e orgulho.
O entendimento desses atributos e associações faz com que o consumidor aceite pagar um preço mais alto por um produto dessa marca, e este fato certamente gera valor ao acionista. Um dado considerável é que atualmente a marca União pertence ao portfólio de marcas do Grupo Nova América.
Outra marca que também pratica um premium price aceitável é a Tigre. Se a dona de casa compra açúcar para preparar bolos e se sentir orgulhosa disso, quem sai em busca de tubos e conexões se vê em um contexto bastante distinto, vivendo uma experiência que não é das mais agradáveis – construção ou reforma de uma casa ou apartamento. Quem já passou por esse processo adoraria evitá-lo, se fosse possível. Nele tudo é desgastante, desde o gerenciamento da obra, até os atrasos de alguns fornecedores que não entregam o serviço/produtos no prazo combinado.

A Tigre optou por aproveitar-se justamente desse contexto estressante para enfatizar ao consumidor a importância de se fugir do chamado “mico” e evitar problemas futuros. Afinal, o custo de tubos e conexões é muito pequeno se comparado a obra como um todo e não vale a pena economizar nesses itens. A estratégia vem se mostrando eficiente, porém resta a pergunta: este é o único motivo do premium price aceitável da Tigre? Este é um dos motivos, mas com certeza não é o único.
Além de trabalhar muito bem o consumidor final, com diversas campanhas que sempre remetiam ao “Tigre não dá Xabu”, a empresa também fez algumas ações com outros públicos estratégicos. Por exemplo:
- Investimento forte em qualidade de produtos – até mesmo a extensão para outras categorias serviu para fortalecer a marca Tigre;
- A Universidade Tigre para qualificar encanadores. Sabendo que esse público estratégico tem importante papel no processo de compra de produtos, a tigre inteligentemente desenvolveu inúmeros cursos e criou, inclusive, uma carteirinha para qualificar encanadores. Imagine você o nível de lealdade que este profissional desenvolveu com a marca, depois de ter sido treinado com tubos e conexões da Tigre! Mais que isso, esse profissional passou a sentir que a marca Tigre se preocupou com ele.
- Os vínculos de inclusão social são extremamente fortes. Quantos clientes são fieis ao Banco do Brasil ou Bradesco, pois foram os bancos que lhes possibilitaram o acesso a uma conta corrente? No caso da Gol, vários são os depoimentos de consumidores que puderam realizar a primeira viagem aérea por esta marca. Se antes eles levavam até vários dias pra chegar a seu destino, hoje podem fazê-lo em algumas horas, apenas. É incrível como estas marcas exploraram esse comportamento dos consumidores e atingiram a extrema lealdade destes públicos estratégicos. A qualidade dos produtos oferecidos deve ser considerada, mas é inegável que a marca exerce um prisma para que esta percepção agregue valor e, ao final, os consumidores aceitem pagar um pouco mais pelo produto.
O resultado disso é que estas marcas conseguem exercer um prêmio de preço aceitável gerando, na outra ponta, maiores lucros para as empresas e maior valor aos seus acionistas.
Citemos aqui um exemplo de premium price gerado pela Starbucks, um dos maiores sucessos no mundo inteiro. Esta marca relativamente nova consegue, por meio de um posicionamento absolutamente relevante (“a melhor opção entre o seu trabalho e sua casa”), cobrar quase 10 vezes mais que seus concorrentes. Eu, pessoalmente, comprovei isso: em Nova York podia tomar um café na esquina por aproximadamente US$ 0,50. Então, por que me dispus a pagar US$ 5,00 por um café? Pela experiência. Pelo ambiente. Pela forma como somos atendidos. Pelos ideais daquela marca, que estão alinhados com nossa forma de pensar. E, finalmente, para tomar um bom café.
1. Estabilidade de Demanda
Sempre mencionamos que uma marca forte é um verdadeiro escudo contra crises, que garante o nível de estabilidade de demanda bastante superior em relação às outras empresas. Aqui, os vínculos de lealdade são bastante visíveis, não somente em relação aos clientes consumidores finais. Essa lealdade vem também dos colaboradores, dos canais (no caso das marcas Natura e Avon, vêm de sua rede de revendedoras, no caso do gás GLP, dos revendedores); dos influenciadores no processo (como o encanador, no caso de tubos e conexões, o engenheiro quando quer comprar um motor da WEG, o serralheiro, no caso da Gerdau, entre muitos outros); acionistas, sociedade e todos os públicos estratégicos.
Para melhor exemplificar a estabilidade da demanda destaco aqui duas marcas, uma brasileira e uma global, que julgo serem ícones dessa alavanca de valor. Todos que já visitaram o Maranhão sabem a força do guaraná Jesus. Esta marca tinha em 2001, a mesma participação de mercado da Coca-Cola, chegando até a praticar premium price em relação a concorrente. Quando estive pessoalmente naquele Estado observei quão impressionante é a força da marca que se manifesta das formas mais variadas:
- em diversos canais;
- um motorista de táxi declarou que “de vez em quando, o Jesus some e a gente fica desesperado, pois só toma do Jesus”...;
- esse refrigerante não tem nenhuma associação com a imagem de Jesus Cristo, e todos os ludovicences (nascidos em São Luis, a capital do Maranhão) sabem que o produto é uma homenagem ao seu criador, Norberto Gomes, e mantêm lealdade à marca;
- sabor é uma questão de costume e, no caso do Guaraná Jesus, este é um dos direcionadores mais importantes no processo de escolha dessa marca. Os consumidores são tão acostumados e apreciam tanto o sabor que, dizem, é comum algumas mães o baterem no liquidificador e dar a seus bebês. Com isso já se pode imaginar o nível de lealdade deste refrigerante!
A história do produto é bastante curiosa. Há 80 anos, Norberto Gomes queria criar uma espécie de magnésia fluída, um medicamento que à época estava na moda. Para produzi-la, Norberto comprou uma máquina de gaseificação, porém inicialmente a ideia não teve resultados eficientes. Ele então decidiu preparar uma bebida para os netos, misturando 17 ingredientes básicos, entre eles ervas e produtos que descobria em constantes viagens à Amazônia. O gostinho de canela adocicada e a cor da bebida agradaram não somente aos netos, mas toda a vizinhança. Desde então, o refrigerante tornou-se sucesso entre os maranhenses.
A estabilidade de demanda desta marca é algo próximo do inacreditável, e faz parte do orgulho do povo maranhense. Tal é a força da marca na região que a Coca-Cola adquiriu a Guaraná Jesus em 2003.

O segundo exemplo desta alavanca de valor é a marca Harley-Davidson. Quando alguém compra uma motocicleta Harley, com certeza está alinhado a filosofia e estilo de vida que a marca representa.
Quando um indivíduo adquire uma Harley-Davidson, ele sabe que está se juntando a uma família, uma espécie de clã que possui, inclusive, uma organização, a H.O.G. (Harley Owners Group), que engloba mais de um milhão de pessoas no mundo inteiro. Uma prova de que a marca transcendeu a categoria é acima, obtida no site da empresa. Ela remete a uma associação imediata com a marca Harley-Davidson, mesmo com os personagens estando sem as motocicletas ou os produtos.
1. CUSTOS MAIS COMPETITIVOS
A terceira alavanca de valor se refere ao fato de empresas com marcas fortes conseguirem menores custos como uma vantagem competitiva, decorrente da diferenciação e lealdade de seus públicos estratégicos.
1) A primeira evidência deste fator está na redução de custos em lançamentos de novos produtos. Marcas fortes, quando lançam novas categorias de produtos, otimizam os investimentos em comunicação. Foi o caso do lançamento do Ipod com a marca Apple. Certamente a empresa conseguiu aproveitar melhor o budget de comunicação, até mais do que na data do lançamento de outro produto, o MP3, sem a marca. Não entramos aqui no mérito da coerência de valores ou do “stretch” da marca, mas é inegável que uma marca forte sempre obtém vantagens com esse ganho de escala.
2) A segunda evidência é o fator humano. Marcas fortes, com colaboradores identificados com sua essência e ideologia registram maior índice de lealdade e, consequentemente, baixa rotatividade. Quando a empresa consegue reter seus melhores talentos, aperfeiçoa o investimento em treinamento e diminui os custos com pessoal. Assim, melhora sua competitividade no mercado.
3) A terceira evidência é relacionada ao mercado de capitais. Estudo recente publicado pelo Journal of Academy of Marketing Science comprova que marcas fortes geram valor aos acionistas porque, segundo percepção do mercado de capitais, empresas detentoras de marcas fortes possuem uma maior rentabilidade (Lucro/Receita líquida) e menores riscos operacionais (medidos através do chamado beta que, de forma simplificada, pode ser definido como o nível de risco percebido por uma ação).
A responsabilidade social é um dos itens pelos quais as empresas são avaliadas no Dow Jones Sustainability Índex (DJSI) e no Índice de Sustentabilidade empresarial da Bovespa (ISE). Elas são capazes de criar valor para os acionistas em longo prazo, por conseguirem aproveitar as oportunidades e gerenciar os riscos associados a fatores econômicos, ambientais e sociais. Essa avaliação leva em conta, além da performace financeira, a qualidade da gestão da empresa. Uma gestão ideal deve integrar o valor econômico, a transparência, governança corporativa e a responsabilidade social e ambiente como forma de sustentabilidade em longo prazo. Em última instância as empresas que possuem este índice se transformam em referência para o mercado de capitais. Tanto que existem fundos de investimento destinados somente a empresas listadas pelo DJSI ou ISE. Por isso, empresas que se posicionam sob o mérito da responsabilidade social, pensam num desenvolvimento sustentável e também são eficientes, acabam tendo um custo de captação financeira bem menor.
“A sustentabilidade, por prever a melhoria contínua de processos e a garantia de retorno de longo prazo aos acionistas, é arquitetada diariamente, junto com as mudanças da sociedade, necessitando, assim, de administrações altamente profissionais, bem articuladas e hábeis no gerenciamento de riscos, além de ferramentas de última geração para a implantação, medição e comprovação de resultados de ações relacionadas às dimensões ambiental, social e econômico-financeira...
...Certamente o aquecimento nesse mercado não é provocado apenas pelas empresas com o perfil do ISE (as mais líquidas da Bovespa), mas também por um número sem fim de corporações interessadas em diferentes fundos relativos ao que se tem chamado de “investimentos éticos” e que começam a aparecer no mercado. Confiantes de que carteiras compostas por grupos socialmente responsáveis superem em até 2,5% os tradicionais, os bancos (segundo setor com maior representatividade no ISE, atrás do elétrico) preparam fundos para investidores que buscam papéis de primeira linha e com boas taxas de retorno.”
Fonte: Gazeta Mercantil – 10 de Março de 2006 / Caderno A – Pág. 3

A adesão de bancos ou provedores de capital de terceiros a marcas fortes poderiam se constituir em potencial adicional de competitividade em custos. Porém, ainda são muito raras as operações estruturadas e garantidas com ativos intangíveis. Segundo Eduardo Kayo, em sua tese de doutorado (FEA USP 2004) não existe nenhuma evidência de que empresas intensivas em ativos intangíveis tenham um menor custo de capital de terceiros. Um dos motivos talvez seja o fato de que as instituições financeiras preferem receber como garantia de seus empréstimos ativos tangíveis como fábricas, máquinas e equipamentos, ainda que saibam que estes possuem uma liquidez de mercado menor que os ativos intangíveis, e também que eles representam uma parcela relativamente pequena dos ativos da corporação.
Conclusão
Em muitos casos, empresas contratam extensos estudos de mercado sem propriamente entender qual é o real impacto da percepção nas alavancas de valor do acionista. Em geral, buscar estabelecer a relação entre o brand equity em relação às alavancas de valor pode ser algo útil, uma vez que se pode ter uma visão mais integrada da informação e pode ser muito útil para estabelecer um modelo de monitoramento de marca ou um monitoramento analítico das estratégias de marketing e comunicação.
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(*) Eduardo Tomiya é engenheiro, Mestre, Phd em Engenharia de Produção da Escola Politécnica da USP, sócio fundador da BA - BrandAnalytics Consultoria de Marcas. Foi por 6 anos Diretor de Brand Valuation da Interbrand (América Latina e Ibéria) e por 5 anos foi sócio diretor da Trevisan na área de Corporate Finance. É professor de branding na FAAP, FGV, INPI, Rio Branco. (E-mail: eduardo.tomiya@brandanalytics.com.br)