Dias Branco vai da massa ao cimento
Fonte: O Estado de S. Paulo
Por Patrícia Cançado
Publicado em 16 de agosto de 2010
Com os R$ 410 milhões captados no IPO em 2006 ainda intactos, família investe em hotelaria, logística, construção civil e cimento
O empresário Francisco Ivens Dias Branco recebe a reportagem numa sala vazia, com quatro mesas e alguns porta-retratos com fotos de família, um dos poucos sinais de uso do espaço. Fazia alguns meses que o controlador não visitava o escritório da M. Dias Branco em São Caetano do Sul (SP), onde fica uma das fábricas de massas e biscoitos da companhia, a líder do setor. Quando pedimos para que posasse para a foto na fábrica, Ivens se recusou, com uma justificativa pouco usual para o dono de tudo aquilo: "Eu avisei que não passaria na fábrica hoje. Fica chato. O que o pessoal vai achar: que só venho aqui para tirar foto?" Na verdade, Ivens quer dar o recado de que não participa mais do dia a dia da indústria que ajudou a fundar ao lado do pai, o português Manuel, na década de 50.
Aos 76 anos, o dono de uma das maiores fortunas do Nordeste não pretende parar. Ainda ocupa o cargo de presidente da companhia, mas hoje divide seu tempo com outros negócios. A família Dias Branco é dona de um terminal portuário em Aratu, na Bahia, constrói uma fábrica de cimento em Quixeré (CE), tem uma construtora regional de alto padrão (Idibra), dois hotéis em Fortaleza e é uma das acionistas do maior empreendimento hoteleiro da América Latina, o Aquiraz Riviera, em construção no litoral cearense (leia box acima). "A minha grande aposta é em infraestrutura. A ideia é que esses negócios possam gerar tanto dinheiro quanto a M. Dias Branco no futuro", acredita Ivens. Em 2009, a indústria de massas e biscoitos faturou R$ 2,3 bilhões e teve um lucro de R$ 346,4 milhões.
Os investimentos não são modestos. A fábrica de cimento, por exemplo, vai exigir um aporte de R$ 350 milhões - metade virá da família Dias Branco e a outra será dividida entre os dois sócios, o empresário Juscelino Sarkis (ex-dono da Cimento Davi, vendida para a francesa Lafarge) e a Cooperativa dos Construtores do Ceará. A produção é estimada em 1 milhão de toneladas por ano. Para ter uma ideia, a Votorantim anunciou recentemente o projeto de uma fábrica de cimento no Ceará com capacidade anual de 750 mil toneladas.
Incentivos. No Porto de Aratu, o clã já colocou R$ 300 milhões, segundo Ivens. E a ideia é investir outros R$ 200 milhões para ampliar a capacidade de armazenagem. Segundo o consultor cearense Tarcísio Pinheiro, da Tarcísio Pinheiro e Economistas Associados, o empresário foi atraído para a Bahia no começo da década por uma ação do então senador Antonio Carlos Magalhães e do ex-secretário da Indústria e Comércio do Estado, Benito Gama (PTB), para construção de um moinho de trigo e de uma fábrica com incentivos fiscais.
"Foi então que ele vislumbrou a construção do porto. O terminal foi feito inicialmente para receber trigo em grão, mas hoje é grande exportador da soja e do milho produzido no oeste baiano", diz Pinheiro. O porto, segundo ele, está virando um negócio à parte. "Se eu tivesse 40 anos nesse Brasil de hoje, faria um estrago", diz Ivens. "Muito embora eu não tenha o vigor de antes, eu sinto que, devido ao meu temperamento, não posso parar de vez. Tenho de assistir de camarote."
O que chama atenção é que boa parte dos investimentos vem sendo feita com capital próprio. Mais: os R$ 420 milhões levantados na abertura de capital, quase quatro anos atrás, permanecem intocados. "Por enquanto não tenho planos para esse dinheiro. Estamos sempre estudando novos negócios", conta Ivens. "Sempre tivemos a filosofia de não exacerbarmos os gastos, a família inteira foi criada no trabalho. Meu pai sempre foi muito conservador, desde o começo investiu seus tostões em imóveis."
Português, Manuel Dias Branco veio tentar a sorte no Brasil em 1922, com apenas 18 anos. Começou trabalhando no comércio de Belém (PA), mas uma gripe severa acabou levando o jovem imigrante para a serra de Guaramiranga, no Ceará, para tratamento médico. Antes de criar a Fábrica Fortaleza com o filho Ivens, Manuel chegou a ter uma rede com oito padarias.
Formiguinha. A indústria dos Dias Branco rapidamente se mostrou um negócio melhor que o das padarias, mas só começou a ficar grande na década de 90. Com um sistema de distribuição de formiguinha e focada no pequeno e médio varejo - filosofia que os guia até hoje -, a M. Dias se tornou um fenômeno na indústria de alimentos. No ramo de biscoitos, por exemplo, tem 22% das vendas no País, enquanto a participação das multinacionais Nestlé e Kraft, segunda e terceira colocadas, é menos da metade da sua.
"Na teoria, é um sistema de distribuição ineficiente. Mas muitas empresas regionais de alimentos cresceram assim. As Kombis e vans saíam da Fábrica Fortaleza às 5h da manhã para chegar nas mercearias antes dos caminhões da Coca e da Souza Cruz. Assim, sobrava dinheiro para comprar os biscoitos e massas", diz Mansueto Almeida, economista do Ipea e estudioso da indústria regional. "É fato que a M. Dias foi beneficiada pelas políticas fiscais do Nordeste. Mas o Ivens é um empresário visionário, que caminhou para ganhar competitividade nacional."
Segundo especialistas, o que também deu competitividade à M. Dias Branco foi a decisão de verticalizar a produção de massas e biscoitos. Hoje, 40% dela é feita com gordura vegetal própria e 60%, com farinha "feita em casa". O objetivo é atingir a autossuficiência em cinco anos.
Concorrentes reclamam da agressividade da M. Dias Branco. "Como o mercado está estagnado, o que fica é uma competição acirrada entre os players. A M. Dias tem muita bala na agulha e compete por preço", diz um executivo da concorrência. Na última década, a indústria cearense aumentou seu poder de fogo ao comprar a Adria de um grupo argentino e a Bom Gosto, dona da marca Vitarella. Ivens avisa que não deve parar por aí.
Obra polêmica
Tido como o maior complexo hoteleiro do País, o Aquiraz Riviera - dos grupos portugueses Sol Verde e Dom Pedro e da família Dias Branco - é investigado pelo Ministério Público Federal. Uma das suspeitas é a utilização indevida das dunas. "Nossa perícia já constatou captação de água do lençol freático sem permissão do órgão de gestão de água", diz o procurador Alessander Sales. Outros resorts do litoral cearense também são investigados.