No centro da estratégia
Fonte: Consumidor Moderno
Por Renan
Publicado em 03 de agosto de 2010
Administração das marcas ganha importância fundamental no desenvolvimento das empresas e é considerada oportunidade de diferenciação em mercados comoditizados.
O desenvolvimento dos negócios, em qualquer segmento, leva a um processo de progressiva comoditização dos produtos. Ao mesmo tempo em que novas tecnologias podem criar vantagens competitivas, o barateamento das tecnologias e o acesso cada vez mais rápido à informação fazem com que qualquer novidade seja rapidamente copiada. No setor de vestuário, o paradigma vencedor é o fast fashion, que tem justamente a capacidade de colocar no mercado, em poucos dias, a última moda vista nos desfiles de Milão, Paris ou Nova York. Foi-se o tempo em que era possível deter a exclusividade em produtos por algum tempo e, assim, alcançar margens de lucros maiores.
A consequência é que produtos, características técnicas e preços são cada vez mais parecidos e, com isso, é difícil obter um diferencial nos aspectos tangíveis. As promoções também são de curta duração e facilmente copiáveis. Dessa forma, mais e mais empresas estão percebendo que sua real vantagem competitiva está, na realidade, na força de suas marcas.
“A marca é um ativo, um bem de propriedade exclusiva de alguém, que pode ser uma entidade, uma empresa ou mesmo uma pessoa”, define Daniel Domeneghetti, CEO da DOM Strategy Partners, consultoria especializada em estratégia corporativa e gestão de ativos intangíveis. “Esse ativo traduz o propósito, valores, atividades, práticas e conceitos e formam a percepção que o consumidor tem a respeito da empresa”, completa.
Para Domeneghetti, a importância da marca como ativo estratégico para as empresas é um tema em alta. “As empresas estão cada vez mais preocupadas com o valor de sua marca e com a maneira como ela é percebida pelos clientes”, diz. Na era da web 2.0, em que o consumidor tem total liberdade para falar bem ou mal de qualquer marca nas redes sociais, para todo mundo ler, ver e ouvir, gerenciar o branding ganha ainda mais importância.
A questão da marca, porém, não deve ser vista isoladamente. “A marca é importantíssima, fundamental, mas precisa estar sustentada por outras ações”, comenta o consultor. Entre essas ações está, por exemplo, a abertura de lojas- conceito da indústria, que visam apresentar, para os consumidores, toda a linha de produtos e o posicionamento da empresa. “Vivemos um tempo em que a loja da Apple em Nova York é mais visitada do que a Estátua da Liberdade, por exemplo. Hoje, a racionalidade não consegue explicar as relações humanas e a criação de estratégias vencedoras é uma tarefa que mistura arte e ciência. Os exemplos estão nas lojas-conceito das empresas, em ações de brand experience, nos investimentos na disseminação dos valores da marca“, comenta Stephan Younes, presidente do Comitê de Branding da Associação Brasileira dos Anunciantes (ABA).
Com as lojas-conceito, os fornecedores de produtos conseguem, em um espaço diferenciado, mostrar conceitos, explicar os diferenciais de cada item e agregar valor à imagem de suas marcas. Um exemplo dessa estratégia é a Sony, que já abriu mais de 200 lojas Sony Style no mundo (inclusive no Brasil). São pontos de venda em que cada linha de produtos é apresentada em um universo próprio, com atendimento consultivo, para que os consumidores possam experimentar a tecnologia fornecida pela empresa.
Esforço de Gestão
“No passado, as marcas eram vistas, no máximo, como um logotipo. Era algo ligado exclusivamente à comunicação institucional. Hoje, porém, as empresas entendem que a marca deve estar ligada diretamente à gestão dos negócios, ao plano estratégico”, conta Daniella Bianchi, diretora de estratégia de marca da Interbrand. “Elas entendem que as marcas são um ativo que entrega valor e que, se administrado corretamente, cria uma identificação com o consumidor”, complementa.
“Marcas fortes influenciam o processo de geração de valor do acionista, provendo um lucro muito mais sustentável do que aquele advindo de outros fatores”, afirma Eduardo Tomiya, diretor da BrandAnalytics, empresa de gestão de marcas. Essa realidade é demonstrada claramente pelo setor financeiro, já que os maiores bancos brasileiros lideram os principais rankings de valor de marca e as empresas do setor estão entre as líderes em lucratividade. Com metodologias diferentes, Brand Analytics, Interbrand e Brand Finance desenvolvem no Brasil listagem das marcas de maior valor. No caso da Brand Analytics, que desenvolve o ranking “As Marcas mais Valiosas do Brasil”, em três dos últimos quatro anos o Bradesco ocupou a primeira colocação. Na edição mais recente da pesquisa, realizada em parceria com a revista “Istoé Dinheiro” com base em dados de 2009, a Petrobras ocupou a primeira posição, avaliada em R$ 19,28 bilhões, depois que o levantamento passou a avaliar as operações b2b das empresas, e não somente aquelas dirigidas ao consumidor final. Na edição anterior do ranking, relativa a 2008, a empresa era a sexta colocada, com valor de marca de R$ 2,31 bilhões, mas eram consideradas apenas as operações da BR Distribuidora.
Essa é a primeira vez em quatro anos que a liderança do ranking é ocupada por uma marca não financeira. O Bradesco passou para o segundo posto, com R$ 14,85 bilhões e crescimento de 23% na comparação anual. O Banco Itaú vem em terceiro, valendo R$ 13,298 bilhões, seguido pelo Banco do Brasil, com R$ 11,026 bilhões. Foram avaliadas 200 marcas de 147 empresas e instituições de capital aberto. O processo de avaliação passa pelas perspectivas de lucros futuros dos ativos intangíveis (qualidade de produtos e atendimento, nível de comunicação com o público e o mercado, capital humano e intelectual, princípios morais, governança corporativa, entre outras características) percebidas pelo mercado de capitais, expectativa de lucros futuros da marca, análise de risco, e, finalmente, o cálculo de valor.
Com outras metodologias, mas também avaliando aspectos como lucratividade, capital humano, governança corporativa e comunicação com o mercado, o mais recente ranking da Interbrand apresenta Itaú, Bradesco e Petrobras nas três primeiras colocações. Já a Brand Finance indicou Bradesco, Itaú e Banco do Brasil como as marcas mais fortes do Brasil.
O Itaú Unibanco, maior banco privado do País e marca mais valiosa do País de acordo com o ranking Interbrand 2010, avaliada em R$ 20,65 bilhões, tem investido na integridade do seu branding como forma de incorporar o Unibanco, adquirido no ano passado. “Definimos com clareza os principais valores de nossa marca, como solidez, contemporaneidade e proximidade com o cliente. Dentro da área de marketing há uma superintendência de gestão de marca, que cuida para que todos os pontos de contato do cliente conosco transmitam os mesmos valores”, explica Cristiane Magalhães, diretora de marketing do Itaú Unibanco. “O foco é fazer com que todas as áreas da empresa incorporem os valores da marca em todas as suas ações. Dar importância a essa valorização da marca gera competência e coerência na realização dos negócios”, afirma.
“Percebemos, pelo levantamento, que as empresas estão cientes da necessidade de trabalhar a percepção externa da marca. Antes só se pensava em gerenciar fábrica, produção, pessoal. Agora há um trabalho de gerenciar a imagem.”, comenta Tomiya. Para ele, nesse processo a chave é trabalhar bem a comunicação, criando uma conexão entre a empresa e os clientes. O que leva a uma outra tendência do branding apontada por Daniel Domeneghetti: a revolução dos modelos e práticas de consumo por causa do consumidor 2.0.
Presença Multicanal
“A evolução das mídias, especialmente das redes sociais, aumenta a complexidade da comunicação e exige que as marcas trabalhem diferentes aspectos em cada momento”, conta Domeneghetti. “A TV pode ser usada para a construção da imagem institucional e é reforçada pelas mídias de relacionamento, como contact centers e web sites. Depois há as mídias de colaboração, como os blogs e o Twitter, que são plataformas de interação das marcas com os consumidores; e que podem ser reforçadas por mídias transacionais, como o vendedor da loja física ou a revendedora porta a porta”, exemplifica. “Todas elas tangibilizam a marca e entregam a proposta de valor, mas é preciso ter uma forte coordenação, caso contrário um canal pode destruir o que o outro construiu”, ressalta.
O Grupo Pão de Açúcar, maior varejista brasileiro, é um caso de empresa multicanal que trabalha os múltiplos pontos de contato de uma forma integrada. A companhia conta com várias redes de super e hipermercados (Extra, Extra Perto, Extra Fácil, Pão de Açúcar e CompreBem); redes de eletroeletrônicos (Extra Eletro e Ponto Frio); várias marcas no mundo on-line (Paodeacucar.com.br, Extra.com.br, Pontofrio.com.br); forte presença em redes sociais, tanto com canais promocionais (como é o caso do Ponto Frio) quanto com perfis mais ligados a conteúdo (o perfil @Taeq no Twitter, por exemplo, traz dicas de alimentação saudável e qualidade de vida). Além disso, tem uma forte imagem ligada à qualidade de vida, tanto pela oferta de produtos naturais e orgânicos nas lojas, quanto pelo apoio a práticas esportivas, como a Maratona de Revezamento Pão de Açúcar.
A marca é a essência
A terceira grande tendência do branding é a marca como essência. “As marcas, cada vez mais, se transformam na essência da empresa. De certa forma, sempre foram, mas só agora os gestores estão tomando consciência disso”, comenta Domeneghetti. A consequência é que os valores, princípios e práticas corporativas estão sendo trabalhados para refletir a marca e torná-la mais verdadeira e transparente. “Morre um pouco o conceito da marca como um objeto que simplesmente carrega uma proposta comercial e cresce a ideia da marca como algo que define a empresa e aí então propicia uma relação comercial”, explica. “A marca tem de ajudar a vender, mas ela é mais do que simplesmente uma abertura de portas ou um emblema”, afirma o consultor.
Para a Natura, por exemplo, bem-estar e sustentabilidade são conceitos que fazem parte do DNA da companhia, pois são desenvolvidos desde a criação da empresa e estão presente em todos os aspectos da gestão do negócio da empresa, desde o relacionamento com os colaboradores até o desenvolvimento dos produtos e a comunicação com os clientes. O Fleury, uma das principais redes de laboratórios de análises clínicas do País, por sua vez, leva tão a sério a questão da excelência do atendimento ao cliente que muitos clientes só adquirem um plano de saúde se ele permitir exames no Fleury. Esse aspecto do atendimento de alta qualidade está presente na cultura da empresa desde a contratação de pessoal, sendo reforçado por ações cotidianas e pela busca incessante por um modelo de relacionamento com o cliente que o faça sentir-se especial. No setor automotivo, a Mercedes é um caso em que a excelência está no DNA, não apenas por atender ao segmento de luxo, mas por unir uma série de atributos, como qualidade, tecnologia, glamour e exclusividade, que fazem com que o cliente espere isso em todos os canais de relacionamento e impõem a árdua tarefa de superar expectativas já bastante elevadas.
“A marca é a promessa que a empresa faz não só para os consumidores, mas também para os funcionários”, acrescenta Lincoln Seragini, presidente da Seragini Branding Design. Uma promessa que cria desafios adicionais em momentos de fusão e aquisição, como o Banco Santander vem descobrindo com a compra do Banco Real e a incorporação dos valores da empresa adquirida à marca compradora. “O grande desafio tem sido unir o melhor de cada marca e não deixar que os principais atributos de cada uma delas se percam”, comenta Fernando Martins, vice presidente de marca, marketing e comunicação corporativa do Santander. Para isso, o grupo de origem espanhola tem feito um trabalho cuidadoso de comunicação para que os clientes das duas marcas não percam a identificação com a empresa ao longo desse processo. Foi criado o site do Grupo Santander Brasil, que traz notícias sobre a integração dos dois bancos, e toda a comunicação passou a estar sob esse guarda-chuva. A publicidade passou a usar as duas marcas (Real e Santander), com foco na construção de um novo banco.
Em 2010 a empresa passou a uma nova etapa, com o lançamento de uma plataforma que permeia toda a comunicação do banco, chamada Juntos. “As principais características do Banco Real, que são o relacionamento e o compromisso com a sustentabilidade e fazem parte do banco desde quando ser verde não estava na moda, já estão incorporadas à nova empresa, que possui no seu DNA também o apoio à inovação existente no Santander. O banco tem investido muito para comunicar que a construção dessa nova marca trará mais vantagens e benefícios, pois estamos unindo o melhor dos dois mundos, tanto em relação aos valores e atributos quanto aos produtos e serviços oferecidos“, explica Martins.
Para Daniel Domeneghetti, o Santander-Real está em um momento bastante peculiar. “O Nirvana das marcas acontece quando elas têm uma reputação tão grande que mesmo quando mudam de nome conseguem manter sua força. É exatamente o que o Santander está tentando fazer ao incorporar os valores do Real”, comenta. “É esperar para ver se conseguirão chegar lá”, completa.